domingo, 7 de dezembro de 2008

O dia em que o mundo não parou

O dia começou como qualquer outro. Terminou como o pior deles. Como em qualquer ser humano, a esperança e o amor tornavam a visão turva e faziam com que as nuvens brancas fossem bons sinais, o começo de dia animado fosse um presságio de alegria posterior, a ligação inesperada de uma amiga distante fosse a confirmação de que naquele dia nada poderia dar errado. Mas deu.

Os minutos passavam e a esperança insistia em respirar. Um monitor à frente. A atenção deveria estar naquele jogo ali. Figueirense x Internacional. Mas o coração estava a dois monitores de distância.

E passa o tempo...gritos de gol! Não...esse não me interessa... Gol! Gol! Gol! O Internacional está na frente! Comemoro, comemoro, comemoro... mas o tal jogo a dois monitores de distância faz desaparecer o sorriso. Não pode ser! O grito fica preso na garganta, as lágrimas não saem. O local não me permite. Mas, tudo bem. A esperança me lembra que ainda tem muito jogo pela frente. O coração não desiste...

Quarenta e cinco minutos. Quarenta e cinco. O otimista diz que é o tempo suficiente para que tudo dê certo. É o tempo suficiente para que os astros conspirem a nosso favor. Enquanto eles conspiram, eu inspiro... faltam gols, falta ar...

Mais uma vez, os olhos deveriam estar à frente, mas não estavam. Vai! Vai! É agora! Foi quase!
Do outro lado, empate do Figueira... O placar ainda não prejudica, mas os outros resultados também não ajudam...

Ninguém ajuda, ninguém ajuda! Se ao menos o time se ajudasse... Gol! Foi gol! Eu vi! Ah, não...impedido. Alguém tinha que impedir essa tragédia, isso sim!

E se não sai gol de um lado, sai dos outros... lá vai o Atlético...mais um? Só pode ser de propósito... Vai Figueirense... faz o segundo, faz o terceiro aí...

Todo mundo faz gol o tempo todo! E aquele monitor ali não mostra mais gol, não? Acho que é culpa dele... alguém troca esse monitor, por favor? Alguém troca o placar? Alguém troca o time? Alguém faz alguma coisa!

E fizeram...gol! Mas quem tinha que comemorar não devia vestir essa camisa aí... Não entenderam meu pedido! Tá tudo errado!

Essa bola na rede bastou para que o duro golpe fosse sentido antes do apito final. O cronômentro não estava zerado, mas eu só tinha lágrimas para contar. A torcida chorava, os jogadores choravam, eternos ídolos choravam e eu...eu tentava não chorar. A essa hora, os olhos estavam voltados para o Figueirense, mas não viam nada. Só olhavam... os ouvidos captaram o hino ao longe. Como uma antena, captaram também gritos de incentivo, declarações de amor ao clube.... Como segurar as lágrimas?

Falhei. Alguns chegaram para me dar apoio, rir, zoar e até prestar condolências... Eu não falava nada. Se falasse, a lágrima silenciosa gritaria. Isso eu ainda podia evitar. Só olhava para as pessoas. Sem resposta.

Tudo o que eu queria era chorar em paz por um minuto. Um minuto apenas. Mas o mundo não me deu essa chance. Tudo podia estar se quebrando a minha volta, mas o mundo não parou. Nem pra me dar o respeitoso "1 minuto de silêncio". E eu segui com meus afazeres, com a maior vontade de parar.

No dia 07 de dezembro de 2008 o mundo não parou. E por mais que eu ainda esteja triste, não vou poder parar também. Só me resta aproveitar alguns "1 minuto de silêncio" por dia para jogar pra fora tudo o que ficou guardado nesse dia em que o mundo não quis parar.

3 comentários:

Rafa Barros disse...

Interessante como são as coisas...

Não vejo as lágrimas como sinal de fraqueza. Pelo contrário. Foi um golpe duro mesmo. E a forma como os vascaínos se comportaram no estádio, cantando, apoiando apesar de tudo, foi emocionante até para quem não torcia para o clube.

Para renascer é preciso morrer. Nem que seja por um dia, algumas horas. E as lágrimas só denunciam nossa face mais bela, que nos diferenciam de robôs pensantes, como muitos com quem convivemos.

Curioso, porque, mesmo sem saber do seu choro, nem sequer prevê-lo, porque não imaginei que em meio a tanta agitação de um domingo no Sportv ele seria possível, mesmo assim te mandei aquele cartão. Foi coisa de instinto mesmo. Solidariedade? Não sei. Pra mim, uma ponte além que só se pode estabelecer entre dois amigos que se gostam e se sentem de verdade.

Beijos e parabéns pelo texto singelo, profundo e intenso.

Talita Duvanel disse...

Ótimo texto, Pri. Concordo com todas as palavras. Mas a minha sorte, se houve alguma sorte nesse dia, foi que consegui ter um tempo para chorar =(

Warny Marçano disse...

Há algum tempo eu não lia um post tão interessante.
Acho que o futebol (e os esportes em geral) têm em comum esse sentimento de emoção que gera fascínio e interesses mútuos por quem os apreciam.
Esse blog merece mais posts! rs
E já que você gosta de teatro, acredito que goste também de cinema (outra emocionante forma de arte)!
Quando puder, visite meu blog:
http://wcinema.blogspot.com
E parabéns novamente por manter palavras tão criativas e reflexivas em meio a esse planeta irônico.
Bjos!
Warny Marçano