É engraçado como alguns acontecimentos levantam questões escondidas sob toneladas de preconceitos e julgamentos das atitudes alheias. É curiosa essa mania do ser humano de não conseguir se perceber no outro.
No final de junho morreu o cantor, compositor, ator, bailarino, enfim, o astro Michael Jackson. Um acontecimento lamentável, a música perdeu bastante ( mas já ganhou bastante com ele também) e fãs choraram mundo afora. Sim, sim. Tudo isso já foi exaustivamente dito pela mídia ( que, com certeza, ainda vai persistir no tema durante algum tempo).
A morte de Michael, no entanto, fez surgir uma legião de entendidos do assunto "Michael Jackson": sociólogos, médicos, psicólogos, músicos, uma incrível variedade de profundos conhecedores da vida do artista, que você pode encontrar nos bares, ônibus e esquinas da vida. Cidadãos com ou sem diploma, como eu ou você.
Todos querem debater (e, na maioria das vezes, criticar) os "problemas" psicológicos do caçula dos Jacksons 5.
"Ele era negro e queria ficar branco!"
"Ele estragou a saúde para parecer uma coisa que ele não era."
"Ele fez mais de 10 plásticas no rosto, sabia?"
"Ele não falava com o pai..."
Ah, por favor! Quem é que nunca desejou ser diferente? Quem nunca quis ser uma outra pessoa, alguém mais alto, mais forte ou alguém menor, com o cabelo diferente? Quem nunca foi na praia porque achava que sua cor era muito pálida e desejou ficar mais "moreninho"? Quem nunca disse que se ganhasse na loteria faria aquela operação para afinar o nariz, ou uma lipo para ajustar a silhueta? Quem é que nunca desejou que não tivesse crescido para que pudesse viver a vida sem preocupações, como uma criança inocente?
Quem é que nunca teve medo de morrer? Quem nunca comprou cremes e mais cremes para parecer mais jovem? Quem nunca recorreu a tratamentos diversos para retardar o envelhecimento?
Quem é que nunca teve voltade de se esconder do mundo dentro de um lugar paradisíaco, uma Neverland, um País das Maravilhas, onde os problemas não pudessem entrar? Quem não criou para si um mundinho perfeito, que finge não ver as guerras, a miséria, a pobreza, os problemas alheios? Quem nunca virou o rosto para um pedinte na rua, porque a existência dele machucava esse mundinho, porque a miséria dele estragaria o seu belo dia de sol?
Quem nunca brigou com os pais? Pensou em fugir de casa, porque não aguentava mais viver em um mundo onde ninguém o entendia? Quem nunca ficou um dia inteiro (ou mais) de cara emburrada sem falar com o pai, porque ele deu aquela "palmadinha só para espantar a poeira"? Quem nunca disse que quando crescesse seria um pai bem diferente e daria ao filho tudo o que não teve quando criança? Quem não acabou crescendo e exagerou na dose com os filhos, e acabou mimando-o demais, protegendo-o demais...?
Michael talvez já tivesse feito todas essas coisas. Talvez ele tivesse sido essa pessoa com problemas com o mundo, com os pais, com si mesmo, a pessoa que se reconheceria em todas essas questões. O problema é que ele era uma pessoa pública. O problema é que ele pensou em fazer o que a mioria de nós já pensou também, mas ele realmente FEZ, enquanto nós, ficamos SÓ NA VONTADE...
Michael Jackson era uma pessoa especial, sim. Diferente porque reunia em um só corpo vontades e desejos que, geralmente, encontram abrigo em pessoas diferentes. Ele fez o que quis e descobriu que nem sempre o que a gente quer é o que vai nos trazer felicidade.
E foi taxado de louco só porque entre o ser e o não ser, ele resolveu ser. E eu acredito que ele foi e continua sendo, mesmo depois da morte.