quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Pódio nosso de cada dia...

Vendo os Jogos Olímpicos fiquei emocionada em vários momentos. Mas não há como negar que o momento mais emocionante é o pódio. O do César Cielo me tocou em especial. Não sei se por ter sido o primeiro ouro do Brasil em Pequim, por ter sido um primeiro lugar um tanto quanto surpreendente (quem apostou no Cielo antes das Olimpíadas começarem???), ou por ele ser muito fofo. Eu só sei que chorei junto com ele. Aliás, torci muito para que ele superasse aqueles 50 metros em primeiro lugar.

E enquanto assistia àquele garoto chorando no lugar mais alto do pódio, pensei: "Deve ser realmente uma emoção muito grande a sensação de ter vencido algo assim. Uma mistura de incredulidade e alegria."

Depois me veio a idéia de que eu sabia exatamente o que ele estava sentindo. Quantas vezes não choramos ao ver que depois de muito esforço conseguimos uma conquista difícil, que parecia até impossível?

É como estar no alto do pódio e ver todos ali aplaudindo. Sim, todos estão ali por você.

Eu já estive no lugar mais alto do pódio algumas vezes. E chorei. E foi o melhor choro da minha vida.

É claro que tudo tem os dois lados. Já senti raiva por ter errado e ver o pódio escapar. Já me julguei incapaz, já vi anos de preparação, meses de esforço sendo jogados fora. E o pior: por mim mesma. Essa sensação de ter errado justamente quando não se podia errar é terrível.

Somos todos um pouco atletas. Ou não é uma maratona esta vida que vivemos? Não temos que dar um ippon nas dificuldades diárias, levantar um peso maior a cada dia, correr mais rápido que Usaim Bolt para conseguirmos um lugar nesse pódio?

Todos temos metas. Às vezes, triunfamos e podemos chorar pelo ouro conquistado, mas nem sempre é assim. Muitas vezes, temos que amargar a derrota, sofrer nossa própria cobrança (que geralmente é maior do que qualquer outra) e tentar dar a volta por cima. Começar tudo do zero. Novos treinamentos, nova jornada, para tentar acertar da próxima vez.

Eu chorei com o Cielo, com a Maureen, com as meninas do vôlei, da vela, com o João Derly, Diego Hypólito, Tiago Camilo... porque eu sei exatamente o que eles sentiram. Na alegria e na tristeza.
Não, eu não estive em Pequim. Mas já estive dentro e fora do pódio muitas vezes na minha vida.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Fenômenos olímpicos

Olimpíadas...todos juntos em busca de uma medalha. Ou duas, ou três...ou oito! Assim é Michael Phelps. Quando entra na piscina aquele peixe em forma de gente....bem, cante uma pequena canção, beba um cafezinho e olhe para a TV: pronto mais um ouro para o americano. Phelps deve ter mais ouro de lastro do que muito pais por aí. Aliás, se Phelps fosse um país. já estaria a léguas do Brasil no quadro de medalhas...

Mas, tenho minhas dúvidas se Phelps é o grande fenômeno dessas Olimpíadas. Ele é um atleta inigualável, destruidor de recordes e merecedor de qualquer outra "expressão de efeito" que se pudesse usar, mas lhe falta alguma coisa.

Em meio a tantas vitórias, Phelps não aprendeu a cair e se levantar em seguida. Para ele, a vida é dourada.

Por que ele seria mais espetacular do que Tiago Camilo? O judoca brasileiro teve quarenta minutos para aceitar o fim de um sonho. Quarenta minutos que devem ter tido a duração de 40 anos para ele.. A medalha de bronze teve contornos dourados. Não pode apagar o buraco deixado pela falta do primeiro lugar, mas é um suspiro de alívio de quem teve pouco tempo para escalar o poço mais profundo em que já esteve na vida e respirar.

Phelps é mais fenomenal do que César Cielo? O nadador olhou para a start list e teve que aceitar: estava na raia oito. Se classificou para a final por muito pouco. E foi por pouco que subiu ao pódio. Os quarenta minutos que teve Tiago Camilo, não teve César. Um centésimo de segundo a mais e ele ficaria no quase. Mas, o brasileiro foi fenomenal: se um dia antes ele era o oitavo melhor, agora ele já tinha diminuido essa diferença. Um empate saboroso...uma medalha de bronze no peito.

Mas nem só de medalhas vivem os fenômenos. Juliana não conseguiu disputar os Jogos e voltou com sua dor para o Brasil. Não só a dor física; essa passou a incomodar bem menos do que a dor da frustração. E Larissa ficou em Pequim. Teve que responder a todos que lhe perguntavam pela parceira: "Ela não vai mais disputar as Olimpíadas". Teve que encarar a triste realidade a cada pergunta que ouvia. E enfrentar a verdade às vezes dói mais do que uma lesão no joelho.

Andressa Fernandes era reserva da judoca Érica Flores. Não viajou para os Jogos. Mas Érica não pôde competir e Andressa colocou a boca no mundo. Brigou. reclamou, sem medo de represálias ou de punições da confederação. Conseguiu viajar e lutou em Pequim. Perdeu na primeira luta, é verdade, mas mostrou que sabe brigar pelo que quer e pelo que acha justo. A maior vitória, ela já tinha conquistado antes mesmo de pisar em solo chinês.

Daiane dos Santos, 25 anos. Dez anos a mais do que muitas atletas da ginástica artística em Pequim. Quando os olhos do Brasil estavam todos voltados para Jade Barbosa, de apenas 17, a gaúcha voltou a brilhar. Mesmo depois de sucessivas operações nos joelhos, mesmo depois de já ter ouvido que era a hora de se aposentar... Daiane lutou contra a falta de confiança da torcida e empurrou os holofotes na sua direção. Ela mostrou que conhece o solo onde pisa, salta e dança. E que as mais novas ainda têm muito o que aprender.

Esses e muitos outros atletas são fenômenos. Porque mesmo não estando no degrau mais alto do pódio, eles dão tudo de si para, ao menos, respirar nas Olimpíadas.

Por tudo isso, Michael Phelps não é um fenômeno. Ele nada incrivelmente bem, mas ainda não aprendeu a se afogar.